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terça-feira, 20 de setembro de 2011

Diretores e seu melhor filme - Primeira parte



 Fiz uma lista de cada diretor e seu melhor filme, não segundo o gosto popular e da crítica (ainda que em alguns casos haja semelhanças), mas seguindo meu gosto pessoal.

Alfred Hitchcock
Psicose (1960)
Uma das muitas obras-primas de Hitchcock, Psicose é tido por muitos como o maior suspense já realizado. A cena do chuveiro foi depois muito imitada, e o psicopata Norman Bates entrou para a história.

Pedro Almodóvar
Fale Com Ela (2002)
Um dos melhores filmes da década passada, fale Com Ela mistura sentimentos, relações e perda, em uma história inusitada e poética. Oscar de Roteiro Original.

Woody Allen
Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977)
Filme que consagrou a genialidade de Allen. Um romance original numa mistura de comédia e drama. Vencedor de 4 Oscars.

Stanley Kubrick
O Iluminado (1980)
Os melhores filmes de terror são aqueles onde tudo é mais sugerido do que mostrado. E Kubrick sabia disso quando colocou um Jack Nicholson enlouquecido em um enorme hotel.

Akira Kurosawa
Rashomon (1950)
O maior diretor japonês da história do cinema nos mostra um crime pelo ponto de vista de 3 pessoas. Um dos melhores filmes da Sétima Arte. Oscar de Filme Estrangeiro.

Steven Spielberg
A Lista de Schindler (1993)
O Holocausto nunca mais seria o mesmo depois que Spielberg transpôs para as telas a trajetória de Oskar Schindler para salvar a vida de vários judeus. Vencedor de 7 Oscars.

Martin Scorsese
Touro Indomável (1980)
A excelente interpretação de Robert De Niro e a genial direção de Scorsese dão o tom nesse filme sobre um lutador de boxe, suas vitórias e derrotas. Vencedor de 2 Oscars.

Quentin Tarantino
Pulp Fiction – Tempo de Violência (1994)
Mafiosos, lutas de boxes desleais e um assalto que dá errado nessa obra-prima de Tarantino que revolucionou a forma de fazer cinema. Seu segundo filme. Oscar de Roteiro Original.

Jean-Luc Godard
O Demônio das Onze Horas (1965)
Um homem insatisfeito com a vida encontra em uma mulher o motivo para fugir. Porém, a busca por novas motivações terá seu preço. Considerados por muitos como o melhor filme de Godard.

Federico Fellini
Oito e Meio (1963)
Um diretor de cinema  entra em crise. Enquanto isso, lembranças de todas as mulheres que passaram em sua vida começam a torná-lo alguém diferente. Vencedor de 2 Oscars.

Ingmar Bergman
Gritos e Sussurros (1972)
Um dos filmes mais tristes que o cinema já produziu. Bergman fala aqui de dor, sofrimento e a busca pela redenção. Oscar de melhor fotografia.

Francis Ford Coppola
Apocalypse Now (1979)
A busca por um coronel que enlouqueceu em plena selva é o ponto de partida desse filme de guerra visto como um pesadelo. Marlon Brando rouba todas as cenas em que aparece. Vencedor de 2 Oscars. 

Orson Welles
Cidadão Kane (1941)
Votado por muitos como o melhor filme já feito, Cidadão Kane tem o melhor roteiro já visto na história do cinema e um final inesquecível. Excelente em todos os sentidos.. Oscar de Roteiro Original.

Charles Chaplin
Tempos Modernos (1936)
Um sátira à industrialização, Tempos Modernos é também o primeiro filme em que Chaplin introduziria o som. Um dos maiores clássicos da história.

Tim Burton
Ed Wood (1994)
Burton homenageia o cinema, contando a verdadeira história de Ed Wood, do pior diretor de todos os tempos. Em uma cena, Wood encontra Orson Welles. Vencedor de 2 Oscars.

Roman Polanski
Chinatown (1974)
Considerado uns dos melhores roteiros do cinema, Chinatown é um noir colorido, uma trama de mistério com um final antológico. Oscar de Roteiro Original.

David Lynch
O Homem Elefante (1980)
Um homem tem uma rara doença que deformou seu rosto, e tenta viver na sociedade, mas esbarra no preconceito das pessoas. Um dos filmes mais tristes do cinema.

Brian De Palma
Os Intocáveis (1987)
De Palma tem aqui seu melhor momento, levando às telas a história do incorruptível Elliot Ness em sua determinação em prender o terrível mafioso Al Capone.

Hayao Miyazaki
A Viagem de Chihiro (2002)
O mestre da animação japonesa conta a história de uma menina de 10 anos que entra em mundo fantástico e misterioso. Oscar de melhor animação.

Bernardo Bertolucci
O Conformista (1970)
Durante o Fascismo na Itália, um homem recebe uma missão, enquanto acaba se envolvendo demais com uma bela mulher. Grande trabalho de Bertolucci.

John Ford
Rastros de Ódio (1956)
O genial diretor Ford mostra um homem em busca da sobrinha seqüestrada por índios. Ao saber que ela se tornou um deles, ele pretende matá-la. Um dos melhores westerns de todos os tempos

Clint Eastwood
Os Imperdoáveis (1992)
Eastwood dirigiu este que é o melhor western em mais de 20 anos, contando a história de um homem velho que vai em busca de alguns homens que cortaram o rosto de uma prostituta. Vencedor de 4 Oscars.

François Truffaut
A Noite Americana (1973)
O próprio Truffaut interpreta o diretor que comanda uma equipe de filmagem. Uma das maiores homenagens do cinema ao próprio cinema. Oscar de melhor filme estrangeiro.

Michelangelo Antonioni
A Aventura (1960)
Uma mulher desaparecida, a busca incessante por algo que faça sentido e uma história de amor improvável. Antonioni e o início de sua trilogia da incomunicabilidade.

Billy Wilder
Quanto Mais Quente Melhor (1959)
Dois músicos se vestem de mulheres para não serem mortos, e o encontro com uma estonteante Marilyn Monroe. Uma das melhores comédias do cinema. Oscar de figurino preto-e-branco.

Walter Salles
Central do Brasil (1998)
A amizade entre uma mulher de meia idade e um garoto em uma viagem pelo interior do Brasil. Um dos filmes mais premiados do cinema nacional.


sábado, 17 de setembro de 2011

O Triunfo da Vontade



Em 1934, aconteceu na Alemanha mais um Congresso Nacional-Socialista, onde eram expostos os ideais nazistas, reunindo milhares de alemães, civis, militares e principalmente Adolf Hitler e sua cúpula. Até aí tudo normal, se não fosse por um detalhe: a diretora e ex-atriz Leni Riefenstahl, uma artista que vinha de filmes que se passavam em montanhas geladas. Insatisfeito com a falta de qualidade dos registros de seus discursos, Adolf Hitler vê em Riefenstahl, a pessoa ideal para dar pompa e magnitude aos registros de propagandas naquele ano em Nuremberg. Algo que ficasse marcado na História. E o ditador não estava errado.
Os congressos eram armas perfeitas para alienar a imensa multidão que se reunia para ver e ouvir todo aquele discurso de superioridade, promessas e façanhas. Tudo era registrado pelas lentes de Riefenstahl. Porém, o que seria apenas uma simples filmagem com Hitler, seus seguidores e soldados, se transformou em algo maior, essas filmagens confirmaram que Riefenstahl era uma cineasta genial, uma verdadeira força de talento que usava sua câmera sempre de modo magistral, gigantesco, sem nunca cair no lugar-comum. Para conseguir efeitos devastadores, Riefenstahl (com todo o aval de Hitler) mandou construir equipamentos que facilitassem sua câmera de “passear” por diversos lugares, seja horizontal ou verticalmente, sem que houvesse obstáculo algum. E o que se vê demonstra que as técnicas utilizadas por Riefenstahl revolucionaram o processo cinematográfico. Uma triste ironia, sendo que eram nesses congressos que se reafirmava o domínio de idéias insanas que culminaram com o que hoje todos nós conhecemos: massacres, extermínios em massa, sofrimentos e barbáries. Mas não se pode analisar uma obra apenas pelo ponto de vista técnico, deixando de lado o que tal obra se propõe a dizer. 


As técnicas utilizadas por Riefenstahl captavam todo aquele “espetáculo”, de forma a que tudo parecesse épico. Começa com Hitler chegando de avião a cidade de Nuremberg (cidade onde exatamente anos depois foram julgados os líderes nazistas), depois o ditador dá uma volta pela cidade, onde são mostrados os moradores acenando e glorificando-o. Não é poupado cenas de soldados em demonstrações de fidelidade ao Fuhrer. Aliás, não apenas os soldados lhes juravam fidelidade, mas também as filiações e partido, onde não cansavam de dizer: “A Alemanha é Hitler, Hitler é a Alemanha”. Tudo parecia encenado, ao som de músicas clássicas, bandeiras, símbolos nazistas, aviões, etc. As cenas de milhares de soldados marchando é no mínimo impressionante, e até mesmo aterrorizante, quando sabemos que a real intenção daquele exército era de exterminar milhões de pessoas que não se "encaixavam" nos modelos arianos apresentados por Hitler.
É espantoso ver que milhões de pessoas se deixavam levar pelos terríveis discursos de seu “mentor”. Onde Hitler ia, adultos e crianças faziam questão de estarem por perto, cumprimentar o tirano. Olhavam-no com tanta admiração que nos faz pensar que houve uma lavagem cerebral coletiva naquele povo, porque de outro modo não dá para entender o motivo que fazia com que Hitler, um homem de aparência patética, até mesmo risível, com um bigode quadrado, uma figura chapliniana (o próprio Charles Chaplin o imitou de forma brilhante em O Grande Ditador) pudesse inflamar tanta admiração de um povo que se recuperava da perda na Segunda Guerra. No entanto, era isso mesmo que Hitler sabia usar muito bem: causar naquele povo o espírito de uma nação derrotada que deveria se reerguer, marchar e lutar pela vitória. 


Se Hitler era ridículo em sua aparência, sabia usar de sua incrível oratória para levar toda uma nação ao caos, fazendo acreditar em histórias de superioridades de raças e outros delírios incríveis que pareciam tirados da mitologia grega. Riefenstahl sabia disso muito bem, e utilizou esses discursos eloqüentes para dar asas à sua imaginação e focar no que aquele congresso e aquela cidade tinham a oferecer: um belo panorama, um“estúdio” ou “laboratório”, onde tudo é muito gigantesco, e que em alguns momentos nos faz lembrar filmes épicos no estilo Ben-Hur e Lawrence da Arábia. Nunca se viu tantas pessoas reunidas em um só lugar, um verdadeiro espetáculo onde milhares de soldados, moradores da cidade e a alta cúpula nazista (Josef Goebbels, Hermann Göring, Rudolf Hess, entre muitos outros aliados), com seus sorrisos, aplausos e proclamações de fidelidade ao tirano, deixavam crer que eles realmente acreditavam em tudo aquilo.
Riefenstahl usava um truque genial e até então pouco utilizado no cinema: a câmera ao filmar os discursos de Hitler e seus seguidores, era colocada mais baixa, fazendo com que eles parecessem grandes, imponentes, um recurso que Orson Welles utilizaria em Cidadão Kane (repare na cena do discurso); o diretor japonês Yasujiro Ozu também gostava de filmar com a câmera mais baixa.
Os discursos inflamados pareciam bem melhores sob as lentes de Riefenstahl. Até mesmo bobagens panfletárias ditas por Hitler como: “Não é o Estado que nos criou, mas nós é que criamos o Estado”, parece soar de maneira triunfante. 

Afinal de contas, o que é O Triunfo da Vontade? Para muitos, a maior propaganda de guerra já realizada; há quem ache que seja um jogo de alienação. Mas serve também como uma análise: o cinema também pode ser uma arma quando cai em mãos erradas?
Sim, é bem provável, uma vez que Hitler e sua cúpula utilizaram da Sétima Arte como veículo pra vários filmes onde se exaltava o patriotismo. Esses filmes mostravam jovens se alistando no intuito de morrerem se fosse preciso, tudo pela causa nazista, tudo em nome de Hitler. Geralmente eram filmagens amadoras feitas pela Juventude Hitlerista. Riefenstahl apareceu para revolucionar a maneira de se fazer cinema-propaganda (é dela também o famoso documentário Olympia). Infelizmente ela estava do lado errado e pagou por isso. Depois da Segunda Guerra, Riefenstah foi acusada de usar prisioneiros em seus filmes. Só foi condenada a 4 anos de prisão, mas devido ao seu envolvimento em projetos nazistas (ela sempre negou ser afiliada de tal partido), foi boicotada e nunca mais conseguiu financiamento para seus filmes. Acabou trabalhando com fotografia submarina.
Analisando O Triunfo da Vontade como técnica revolucionária e esquecendo um pouco que se trata de um poderoso discurso de propaganda de guerra, notamos que se trata de uma aula de cinema. Porém, se não dá para esquecer as arbitrariedades proclamadas por Hitler, ao menos podemos ver que por trás daqueles discursos inflamados em Nuremberg se escondia uma das maiores cineastas da história. 


Leni Riefenstahl (centro)






Nota: 5 de 5

Título original: Triumph des Willens



Lançamento: 1935 (Alemanha)

Direção: Leni Riefenstahl



Elenco: Adolf Hitler, Josef Goebbels, Hermann Göring, Rudolf Hess, etc.
 
Duração: 114 minutos



Documentário

domingo, 31 de julho de 2011

Vá e Veja




Bielorrússia, 1942, em meio a Segunda Guerra, o adolescente Florya une-se a um grupo anti-nazista, mesmo contra a vontade de sua mãe. Ao sair de casa naquele momento e se aliando àquele grupo de resistência, Florya estará saindo e vendo o que até então ele desconhecia pessoalmente. A trajetória do jovem é nada menos que brutal, a começar pelo mau tratamento do próprio exercito que ele acabara de compor. Em meio a isso, o pior estaria por vir: bombas alemãs atingem o vilarejo onde eles estão, resta a Florya fugir dali juntamente com uma moça que parece ser um caso mal explicado do líder do pelotão. O nome dela é Glasha. Mas o pesadelo de Florya estará apenas começando, quando ele descobre algo bárbaro ao voltar para casa. Ao sair em busca de alimento para o povo de seu vilarejo, ele acaba por vivenciar uma das piores atrocidades praticadas pelos nazistas: o extermínio de toda uma aldeia.
Se o enredo dessa história pareceu forte, prepare-se, você precisa vê-lo em imagens. Algumas das cenas mais impactantes do cinema estão contidas em Vá e Veja, um dos registros mais ferozes da guerra já feitos. Quase duas horas e meia de um doloroso processo de sobrevivência. Para Florya, a morte está em cada passo, em cada tiro, em cada olhar, em cada sombra, em cada palavra expressa. Ele sabe que, suas chances de sair vivo dali são mínimas. Mas ainda assim, surdo em decorrência de bombas, e aparentemente louco, ele luta com todas as forças para escapar daquele tormento.
O diretor Elem Klimov revolucionou a arte de fazer cinema, com uma narração nada menos que espetacular, onde o som tem uma importância fundamental. Mas são as chocantes imagens que dão toda a dimensão do horror vivido. Sua técnica de filmagem é impressionante, revelando um cineasta fabuloso, mas que infelizmente era (e ainda é) desconhecido pelo grande público fora de seu país. Klimov faleceu em 2003, mas deixou além de outras obras, a maior jornada fílmica de medo e dor dos últimos tempos: Vá e Veja.
Baseado em sua própria infância em meio a guerra, Klimov não poupa seu protagonista e nem o público, despejando uma sucessão de acontecimentos que mais se assemelham a um filme de terror. Aliás, é no terror que Vá e Veja mais se concentra, quando vemos o jovem Florya no início bem arrumado, e quando o vemos no final. Só sabemos que é a mesma pessoa porque o acompanhamos em sua jornada, caso contrário seria difícil dizer que o Florya do desfecho, envelhecido e cheio de marcas, é aquele mesmo jovem do início. A espantosa transformação física de Florya é o retrato de toda a guerra, os horrores do Holocausto, a luta para não morrer de forma gratuita. Dizem que o ator Alexei Kravchenko (brilhante, no papel de Florya), teria sido hipnotizado, afim de não sofrer sobrecarga emocional e danos mentais, tamanha a força das cenas.
As cenas de Vá e Veja impressionam, e muito. Só para se ter uma idéia, a jovem Glasha ao conhecer Florya, é mostrada de forma sinistra. Ela, com os olhos visivelmente vesgos, ao mirar em Florya, nos é mostrada como num filme de suspense, quando chegamos a querer que a cena mude de foco. Mas ao contrário de seu novo amigo, Glasha vai se humanizando, demonstrando mais sanidade e percepção, como no momento em que ela percebe que algo está terrivelmente errado na casa de Florya.
A loucura e o medo está presente a todo momento em Vá e Veja. O único momento de descontração de Florya é quando ele e Glasha estão na chuva, e ela dança pra ele. De resto, só vemos o horror incutido em cada cena.
E horror é o que melhor define as cenas finais quando vemos a mais chocante barbárie já mostrada nas telas, feita por soldados nazistas. São alguns minutos de pura dor e revolta, que dificilmente sairá de nossa mente. Simplesmente chocante, onde a selvageria animal dos soldados alemãos vai de estrupos a assassinatos. Ao final, um momento antológico, quando Florya atira no passado, fazendo com metaforicamente, a guerra e seu mentor Adolf Hitler sumam da existência humana. É um desfecho no mínimo genial, um grito de revolta contra o mal em sua essência mais concreta existente no século 20.
Um dos melhores filmes de guerra de todos os tempos, Vá e Veja não é uma obra recomendada apenas para cinéfilos ou estudantes de cinema, mas também para todos que buscam conhecer um dos períodos mais tristes e cruéis da história humana. Porém, nunca é demais avisar que se trata de um filme forte e brutal, onde, quem é mais sensível a imagens de forte impacto, deve de certa forma evitar em ver. Quem se aventurar em embarcar na jornada de medo e loucura de Vá e Veja, jamais irá esquecê-lo. 


Nota: 5 de 5

Título original: Idi i smotri

Lançamento: 1985 (Rússia)

Direção: Elem Klimov

Elenco: Aleksei Kravchenko, Olga Mironova, Liubomiras Lauciavicius, Vladas Bagdonas, Juris Lumiste

Duração: 142 minutos

Drama/Guerra



sábado, 11 de junho de 2011

X-Men: Primeira Classe



Em 2000, o filme X-Men inaugurou uma série de filmes da editora Marvel, uma das mais conceituadas do mundo. O filme conta a história de um grupo de mutantes, recrutado e liderado pelo professor Charles Xavier, um poderoso telepata. A missão: deter a ameaça do temível Magneto e seu grupo. Depois de duas seqüências (X-Men 2 e X-Men – O Confronto Final) e um filme solo do Wolverine (X-Men Origens – Wolverine), o grupo de mutantes retorna aos cinemas, dessa vez, respondendo algumas perguntas como: 1- Como Charles Xavier e Magneto se conheceram? 2 – Como foi criado o grupo? 3 – Por que há essa divisão entre mutantes bons e maus?

X-Men: Primeira Classe responde a essas e outras perguntas. O filme começa nos anos 40, quando o pequeno Erik Lehnsherr (futuro Magneto)vê sua mãe ser assassinada pelo terrível Sebastian Shaw (Kevin Bacon, de O Homem Sem Sombra). Quando cresce, Erik vai em busca de vingança. Anos 60, Erik (Michael Fassbender, de Bastardos Inglórios) descobre que Shaw (que retorna mais jovem, com poderes de absorver energia) está com um plano de colocar os Estados Unidos e a Rússia em guerra. Enquanto isso, o professor Charles Xavier (James McAvoy, de Desejo e Reparação) e sua amiga Raven (a bela Jennifer Lawrence, de Inverno da Alma) com a ajuda da Dra. Moira MacTaggert (Rose Byrne, de Extermínio 2) à serviço da Cia, vão atrás de
Em destaque, a bela Jennifer Lawrence
Shaw, em uma missão mal sucedida. É quando, Charles salva Erik, e ficam amigos. Estes dois começam a reunir e treinar jovens com poderes mutantes (há uma participação especial de um personagem bastante querido do público). Mas os planos de Erik se mostram outros, indo na contramão do que os mutantes procuravam: lutar em defesa dos humanos.
Revelar mais detalhes da história não seria algo correto de minha parte. Só basta dizer que se trata de um ótimo trabalho, fruto do diretor Matthew Vaughn, que tem em seu currículum obras divertidas como Stardust – O Mistério da Estrela (2007), e  Kick-ass - Quebrando Tudo (2010) Este último é o famoso filme em que a atriz mirim Chloe Moretz (que interpreta a filha de Nicolas Cage) rouba o filme, detonando bandidos de uma maneira poucas vezes vistas nas telas.
James McAvoy (Professor Charles Xavier)
X-Men: Primeira Classe traz a origem dos famosos mutantes, porém com um grande diferencial da história original dos quadrinhos criada por Stan Lee e Jack Kirby em 1963. Aliás, uma grande diferença. Nos quadrinhos, a formação original do grupo é composta pelo professor Xavier, Ciclope, Jean Grey, Fera, Homem de Gelo e Anjo. Dessa formação, apenas o professor Xavier e o Fera aparecem no filme, sendo que os outros são: Mística, Destrutor, Banshee e Angel Salvadore (uma personagem criada a pouco tempo nos quadrinhos). Do lado dos vilões, estão, além de Sebastian Shaw, Emma Frost (Rainha Branca), Azazel e Maré Selvagem. Como todo mundo sabe, Magneto futuramente se tornaria o maior inimigo dos X-men.
Elogiado pela crítica e pelo público, X-Men: Primeira Classe ao lado de Superman – O Filme (1978), X-Men 2 (2003), Homem-Aranha 2 (2004), Batman Begins (2005) e Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008), são os melhores exemplares de ótimos filmes de super-heróis levados às telas. Com um roteiro inteligente, X-Men: Primeira Classe mistura ação, mistério, drama e humor na medida certa.
Michael Fassbender (Magneto)
Os leitores de quadrinhos mais exigentes, certamente reclamarão que o filme se distancia bastante do conceito original. Eu, porém, mesmo acostumado com o universo dos quadrinhos, não me incomodei em nenhum momento com as liberdades tomadas pelo diretor Vaughn e o produtor Bryan Singer (diretor dos dois primeiros filmes). Se distancia dos quadrinhos, por outro lado, traz de qualquer forma outros personagens conhecidos e não estraga em nada; ao contrário, só acrescenta e torna mais rico alguns detalhes, como o fato de mostrar Charles Xavier antes de ficar careca e paraplégico, quando este ainda começava a dar aulas.
Eu não poderia deixar de falar do ótimo trabalho da dupla central de atores: James McAvoy, que torna convincente todas as suas cenas, mostrando mais uma vez que é um ator notável, e Michael Fassbender, ator alemão que dá um show na cena do bar em Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino. Também é de se destacar o talento de Jennifer Lawrence, uma jovem atriz que foi indicada ao Oscar por Inverno da Alma, e mostra que, além de muito talentosa, é também uma das mais belas atrizes do momento.
Depois dos recentes Homem de Ferro 2 e Thor, X-Men: Primeira Classe é outro acerto da Marvel. Aliás, o maior acerto desde Homem-Aranha 2.  



Nota: 5 de 5

Título original: X-Men: First Class



Lançamento: 2011 (EUA)

Direção: Matthew Vaughn



Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Kevin Bacon, Jennifer Lawrence, Rose Byrne


Duração: 132 minutos

Aventura





domingo, 5 de junho de 2011

O escapismo artístico e mental

Nunca fui dessa onda de me achar cult ou intelectual, mas confesso que nunca gostei da arte popularesca, ou seja, o que o povão muito aplaude me cheira a banal demais. O povão brasileiro em sua grande maioria adora novelas, filmes “sessão da tarde” e reality shows. Qualquer coisa que empurram goela abaixo, a maioria aceita. Certa vez, um amigo me disse que não se pode viver exclusivamente de filé, é preciso comer também carne de terceira pra assim descobrir que o filé é ainda melhor do que se pensava, e também conhecer outra categoria de mundo como forma de arte menor, ou escapismo. Percebi que isso é uma grande verdade. Vejamos um bom exemplo: Às vezes eu estou em um dia que não estou muito a fim de raciocinar demais, então deixo um pouco os filmes clássicos ou de arte de lado, e vou atrás de um cinema “escapista”, aqueles filmes que você assiste pra passar o tempo, mera diversão mesmo, sem nenhum compromisso de se fazer uma análise crítica maior, e também fugir um pouco da realidade, preferindo também filmes que não retratem tanto o nosso dia-a-dia. É somente nessas horas que filmes tipo a saga Crepúsculo ou Carga Explosiva por exemplo, são bem vindos, porque você não precisa queimar os neurônios, já vem tudo mastigado. Acho que é legal que se faça uma dosagem de vez em quando com o que é o filé e o que é carne de segunda ou terceira. Mas é claro que só de vez em quando, porque assimilar muita bobagem nos deixa sem noção crítica se a nossa intenção é obter um crescimento cultural. Claro que nem todo mundo pensa assim.
Mas convenhamos, há um limite até mesmo pra o que é “escapismo”. Logicamente não é nada louvável se ater a qualquer porcaria só porque se quer comer o osso de vez em quando. Por exemplo: você gosta de uma programação mais inteligente na TV (se é que existe inteligência na TV atualmente no Brasil), obviamente não vai ficar a tarde toda em frente da TV assistindo todas as baboseiras toscas daqueles programas de auditório no domingo a tarde, que ultrapassa todos os limites do bom senso e principalmente, de ruindade. Esses dias à noite, eu estava chegando em casa, quando vi um programa passando na TV (tem tempo que assisti algo na TV) e parei pra dar uma olhada. Era um programa de auditório muito ruim, mas ao menos era engraçado, onde, nem o apresentador, os calouros e muito menos os jurados se levavam a sério, talvez a graça maior esteja aí: saberem que o programa já é ruim e terem o bom senso de saber brincar com isso, sem se levar a sério, como fazem alguns “apresentadores” no domingo a tarde. Se for pra desleixar um pouco a mente, que seja pelo menos com algo que, mesmo que seja ruim, não seja ofensivo. Já assisti muita TV, hoje não me faz mais falta ficar em frente de uma TV, assimilando muita coisa que não presta. Lógico que há exceções, mas numa varredura geral, pouca coisa se salva. Até os telejornais de hoje são fracos, sensacionalistas demais, sempre com apelações pra ganhar da concorrência. O que vale na mídia hoje não é qualidade, é IBOPE.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Infâmia



Em uma escola particular, uma aluna chateada (Karen Balkin), inventa para a sua avó (Fay Bainter) que duas professoras (Audrey Hepburn e  Shirley MacLaine) mantêm um relacionamento amoroso. A partir daí a rotina das acusadas muda drasticamente. O namorado de uma delas (James Garner) lhe dá apoio, mas aos poucos ele vai demonstrando insegurança, devido ao grande escândalo. A menina é neurótica, problemática, o que poderia fazer com que ela tenha inventado essa história, mas os fatos posteriores mostram que ela não está completamente errada.
O excelente diretor William Wyler refilma uma obra dele próprio, de 1936, baseada na peça da escritora norte-americana Lillian Helman. É um texto forte, maduro, bem avançado para a época, com toques psicológicos, tratando de um assunto que até então era raro nos cinemas no início dos anos 60: o homossexualismo.  
Infâmia é daqueles filmes que, se caísse em mãos de um diretor qualquer, resultaria em algo frio, esquemático, sem grande profundidade dramática. Mas Wyler não é um diretor qualquer, e sim um dos maiores gênios do cinema, que sabe conduzir como ninguém grandes atores em uma grande história, sem nunca se perder. Quando situamos esse filme em seu ano de produção (1961), percebemos que é uma obra que está além de seu tempo, porque diferentemente de alguns filmes da época que apenas contêm algumas conotações homossexuais, Infâmia apresenta uma gama de situações e conseqüências relacionadas diretamente ao homossexualismo. Para o expectador mais atento, ele verá de antemão que uma das professoras acusadas, Martha Dobie (MacLaine) apresenta uma atração no mínimo estranha, pela sua colega de profissão, ainda que nunca demonstre uma maior aproximação. A menina que cria toda a polêmica, é manipuladora e obsessiva, mas consegue tornar crível toda a situação, fazendo com que sua avó em certo momento diga para as acusadas: “Uma criança jamais inventaria tais coisas”. O que Wyler quer de fato mostrar não é se a menina está ou não inventando tudo, mas fazer um painel sobre duas vidas destruídas por algo que elas não vivem, afinal de contas, uma delas (Hepburn) está de casamento marcado. As acusadas se isolam no agora abandonado lugar de trabalho, e ali são alvos do desprezo das pessoas daquela cidade.  
O que Wyler não pôde fazer na primeira versão (lembrando que nos anos 30 vigorava o Código Hays, que censurava obras com teor homossexual, entre outros), ele conseguiu fazer em sua versão de 61, indo mais a fundo no texto de Lillian Hellman (que já foi casada com o famoso escritor Dashiell Hammett, autor de obras como O Falcão Maltês e A Ceia dos Acusados, que viraram filmes de grandes sucessos) apoiado em duas extraordinárias atrizes nos papéis principais. Lembrando que, Audrey Hepburn em seu primeiro grande filme em papel principal: A Princesa e o Plebeu, foi dirigida por Wyler. Esse conto de fadas metropolitano deu o Oscar para Hepburn e lhe abriu as portas para uma das carreiras mais brilhantes em Hollywood, em filmes como Sabrina, Cinderela em Paris, Uma cruz à beira do abismo, Bonequinha de Luxo, Charada e Uma Bela Dama (My Fair Lady), entre outros. Shirley MacLaine também teve uma bela carreira, começando em um filme de Alfred Hitchcock: O Terceiro Tiro, fazendo posteriormente entre outros, os aclamados Deus Sabe Quanto Amei, Se Meu Apartamento Falasse, Irmã La Douce, Muito Além do Jardim e Laços de Ternura (de 1983, que lhe deu o Oscar de melhor atriz). James Garner muito jovem faz o namorado de Hepburn, e Fay Bainter que interpreta a avó da menina, ganhou um Oscar de melhor atriz por Jezebel (1938), dirigido por Wyler.
William Wyler foi um diretor de carreira brilhante, muito requisitado por produtores e atores, todos queriam trabalhar com ele, porque sabiam que seus filmes eram sinônimos de qualidade. Foi ele quem ajudou a tornar Bette Davis uma das maiores estrelas do cinema, com filmes como Jezebel e A Carta. Em 1942, dirigiu o premiado Rosa de Esperança; em 1946 faria Os Melhores Anos de Nossas Vidas que lhe deu seu segundo Oscar de direção, mas ainda foi premiado mais uma vez nessa categoria, pelo épico Ben-Hur (1959, primeiro filme a levar 11 estatuetas da Academia). Wyler dirigiu em 1939 a melhor versão de O Morro dos Ventos Uivantes.
Em Infâmia, podemos perceber que o isolamento das duas professoras acusadas, e o preconceito que elas vivem, se assemelha bastante com a situação vividas pela mãe e irmã do personagem principal em Ben-Hur, no qual estando com lepra, se isolam no vale dos leprosos, em uma das seqüências mais emocionantes da história do cinema.
Infâmia é um filme no qual não há saída fácil, não procura solucionar os problemas, deixando que as duas personagens vão em busca de explicações do qual não há respostas, culminando em um final trágico. Indicado aos Oscars de atriz coadjuvante (Bainter), Direção de Arte, Figurino, Fotografia e Som.
Imperdível para quem busca um filme denso e atemporal.


Nota: 5 de 5

Título original: The
Children's Hour

Lançamento: 1961 (EUA)

Direção: William Wyler

Elenco: Audrey Hepburn, Shirley MacLaine, James Garner, Fay Bainter, Karen Balkin.

Duração: 114 minutos

Drama





quarta-feira, 30 de março de 2011

Os Pássaros




Para fazer uma surpresa a um recém conhecido, mulher vai até uma pequena cidade entregar um casal de periquitos. Chegando lá, ela se depara com pequenos ataques de pássaros, mas à medida que o tempo passa, as aves começam a agir de forma mortal, causando pânico e destruição.
Parece estranho, mas o que citei acima foi a sinopse de um filme de Alfred Hitckcock, diretor acostumado a utilizar seres humanos como vilões, mas que em Os Pássaros resolveu radicalizar, surpreendendo o mundo inteiro com esse que foi um de seus maiores sucessos de bilheteria. É interessante ressaltar que se trata aqui do último grande filme do mestre do suspense. Posteriormente ele faria bons filmes como Marnie – Confissões de uma Ladra e Frenesi, mas nada que se compare às suas grandes obras-primas.
Baseado em um livro de Daphne Du Maurier (a mesma autora de Rebecca, também filmado por Hitchcock em 1940), Os Pássaros é um dos filmes mais complexos e cheios de ambigüidades da história do cinema.
Quando Melanie (Tippi Hedren) chega à pequena cidade de Bodega Bay, acontece o primeiro ataque justamente com ela, quando é atacada dentro de um pequeno barco, depois os ataques não param mais, seja em uma festa de aniversário, seja contra os alunos saindo da escola, e, entre outros, quando algumas pessoas estão em uma lanchonete e um posto de gasolina ali ao lado é brutalmente atacado pelos animais,culminando depois no ataque final, quando o namorado de Melanie, Mitch (Rod Taylor), sua irmã Cathy (Veronica Cartwright) e sua mãe Lydia (Jessica Tandy) ficam presos na casa, sob o ataque feroz das criaturas.
Se Os Pássaros fosse feito por um diretor qualquer, veríamos um filme cheio de destruição e gente alarmada por todos os lados. Mas Hitchcock não era um diretor qualquer, mas um gênio que sabia como ninguém como provocar medo nas pessoas.  Pra isso, ele não teve pressa em recorrer ao caos que se estabelece ali naquela cidade, optando primeiramente em nos mostrar um pouco sobre cada um dos personagens principais, entre eles, além de Melanie, Mitch, Lydia e Cathy, temos também a jovem professora Annie (a bela Suzanne Pleshette), uma antiga namorada de Mitch. Muita coisa em Os Pássaros é mais sugerido do que mostrado, para que nós mesmos tiremos nossas próprias conclusões. É interessante perceber que tudo parece acontecer depois da chegada de Melanie à cidade, um exemplo é o fato de a protagonista sempre estar com uma roupa verde (a cor dos periquitos que ela carrega no início), quando tem algum ataque dos pássaros, ela sempre está por perto, e em uma cena um habitante da cidade diz que tudo aconteceu depois de sua chegada.
Hitchcock sempre foi um diretor preocupado não em criar mistérios, mas em manter o suspense, mas aqui ele não deixa pistas do que teria causado a reação violenta das aves, e nem dá um desfecho definitivo, terminando em aberto, nem mesmo o “The end” (tão usado na época) aparece nesse filme.
O inglês Hitchcock sempre procurou ser antes de tudo versátil, não em gêneros, mas dentro das propostas do que queria mostrar em seus filmes. Em O Inquilino (1926), um de seus primeiros filmes em sua fase inglesa, ela cria um interessante enredo sobre um criminoso que lembra bastante Jack, o estripador. Em 1935, no clássico Os 39 Degraus, ele faz com que Robert Donat seja alvo de uma conspiração, uma das primeiras de suas obras em que ele fala sobre o “falso culpado, um homem que leva a culpa por algo que não cometeu, algo que seria visto com mais abrangência em A Tortura do Silêncio (1953, com Montgomery Clift), O Homem Errado (1957, com Henry Fonda) e Intriga Internacional (1959, com Cary Grant). Entre suas mais famosas obras estão: Rebecca – A Mulher Inesquecível (1940, seu primeiro filme norte-americano, vencedor do Oscar de melhor filme e fotografia, estrelado por Laurence Olivier e Joan Fontaine), Quando Fala o Coração (1945, com Gregory Peck e Ingrid Bergman), Festim Diabólico (1948, com James Stewart e Farley Granger), Pacto Sinistro (1951, com Farley Granger e Robert Walker), Disque M para Matar (1954, com Grace Kelly e Ray Milland), Janela Indiscreta (1954, com James Stewart e Grace Kelly), O Homem que Sabia Demais (1956, com James Stewart e Doris Day), Um Corpo que Cai (1958, com James Stewart e Kim Novak) e Psicose (1960, com Anthony Perkins, Janet Leigh e Vera Miles, tido por muitos como seu melhor filme). Hitchcock teve cinco indicações ao Oscar de melhor direção, mas nunca ganhou.
Os Pássaros é um filme-chave para quem quer entender a obra cinematográfica de Hitchcock, é também uma aula de como se fazer cinema. Um estudo elaborado da relação homem-natureza, onde fica sempre claro que uma vez mantidos presos, é hora dos pássaros inverterem a situação contra os humanos. A cena final em que os protagonistas são atacados pelos pássaros dentro de casa, é um primor de técnica, uma façanha magistral em que Hitchcock dispensa trilha sonora (aliás, o filme inteiro não se ouve nenhuma trilha) e mostra todo o suspense através dos ataques dos pássaros e as reações daquelas pessoas. A atriz Tippi Hedren (mãe da também atriz Mellanie Griffith) é o único ponto fraco da obra, sem muita experiência, ela não é tão convincente em seu papel, mas seria usada novamente pelo diretor um ano depois em Marnie – Confissões de uma Ladra.  O final em aberto é uma das cenas mais aterrorizantes da história do cinema. Os Pássaros concorreu ao Oscar de efeitos especiais, mas perdeu injustamente para a super-produção Cleópatra. Os Pássaros é um filme magistral, uma obra-prima de um dos maiores gênios da história do cinema.


Nota: 5 de 5

Título original: The Birds

Lançamento: 1963 (EUA)

Direção: Alfred Hitchcock

Elenco: Rod Taylor, Tippi Hedren, Jessica Tandy, Veronica Cartwright, Suzanne Pleshette.

Duração: 114 minutos

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Cisne Negro



Nina (Natalie Portman), uma bailarina de uma famosa companhia de dança é escalada pelo seu diretor (Vincent Cassel) para ser a principal atração de Cisne Branco e Cisne Negro em O Lago dos Cisnes do compositor russo Tchaikovsky. Agora resta a Nina se dedicar como nunca, mas ela tem pela frente sua mãe super protetora (Barbara Hershey) e uma provável concorrente (Mila Kunis). Aos poucos, Nina vai mergulhando em remédios e drogas, passando a ter alucinações, misturando realidade e alucinações.
Esse é o enredo de Cisne negro, um dos filmes mais aguardados do ano, e também um dos mais intrigantes e fora do comum. É importante que se perceba tratar-se do novo trabalho do prestigiado Darren Aronofsky, um diretor que foge das fórmulas hollywoodiana e consegue sempre surpreender seu público. Para entender Cisne Negro, é interessante que se entenda primeiramente o cinema de Aronofsky: Pi (1998) é a história de um homem obcecado em decodificar a famoso número irracional que representa a divisão entre uma circunferência e o diâmetro, esse número é denominado de Pi = 3,1415926. Dois anos depois, Aronofsky nos apresenta a sua obra-prima Réquiem Para um Sonho, um perturbador estudo sobre o uso de diferentes tipos de drogas envolvendo uma mulher (Ellen Burstyn), seu filho (Jared Leto) e amigos. Em A Fonte da Vida (2006), através de três histórias, três homens (interpretados por Hugh Jackman) tentam encontrar a essência da existência humana. Em 2008, em O Lutador, um ex-campeão de luta livre (Mickey Rourke), tenta retornar ao ringue para uma última luta.
O cinema de Aronofsky é muitas vezes difícil, indigesto e irreal. Em Cisne Negro, a protagonista vive sérias crises que a levam por vezes ao desespero. Não sabemos o que ali é real e o que faz parte da imaginação de Nina. Sua inteira dedicação ao papel principal do futuro espetáculo lhe provoca um anseio enorme, uma busca incessante pela perfeição, abdicando de qualquer tipo de lazer. Até mesmo a dançarina anterior que ela substitui, feita por Winona Ryder, lhe causa efeitos devastadores.
Cisne Negro tem uma atmosfera bastante claustrofóbica, misturando ainda elementos sensuais, como na cena em que a protagonista mantém uma relação com sua concorrente, numa das cenas mais comentadas do ano. Há de se lembrar também que Cisne Negro é um filme que cresce sempre, com um desfecho arrasador, quando a heroína demonstra tudo o que aprendeu, em seqüências de tirar o fôlego.
O elenco é composto de bons atores: Natalie Portman, que estreou quando era garota em 1994 em O Profissional. Cresceu e se tornou uma atriz de respeito, em filmes como Cold Mountain, Closer – Perto Demais e V de Vingança. Foi a personagem feminina principal da nova (e irregular) trilogia Star Wars. O francês Vincent Cassel fez trabalhos importantes como Rios Vermelhos, Pacto dos Lobos e Irreversível. A bela ucraniana Mila Kunis fez entre outros, o fraco Max Payne e o interessante O Livro de Eli. A veterana Barbara Hershey retorna aqui depois de alguns anos em trabalhos sem maiores expressões.
Repleto de imagens oníricas, vislumbres narrativos e uma história intrigante e dramática, Cisne Negro é um filme digno na carreira de Aronofsky. Com câmera na mão, ele registra todo o pesadelo de sua protagonista, sem que em nenhum momento seja lhe tirado o foco, em prol de subtramas desnecessárias. Portman tem aqui o papel mais importante de sua carreira, ganhando vários prêmios, entre eles o Globo de Ouro e o SAG de melhor atriz. O Oscar praticamente já é dela, e por falar nisso, Cisne Negro concorre a mais outros 4 prêmios da Academia: Filme, diretor, montagem e fotografia.
Não é um filme pra qualquer um. Alguns podem reclamar de seu clima sufocante, outros podem achá-lo complexo demais. Mas é inegável que se trata de uma obra diferente e de grande impacto. 


Nota: 4 de 5

Título original: Black Swan

Lançamento: 2010 (EUA)

Direção:
Darren Aronofsky

Elenco: Natalie Portman, Vincent Cassel, Mila Kunis, Bárbara Hershey, Winona Ryder

Duração: 108 minutos

Drama/Suspense






domingo, 23 de janeiro de 2011

Dois Destinos



Dois Destinos é considerado por muitos a obra-prima do diretor italiano Valerio Zurlini, superando até mesmo A Primeira Noite de Tranqüilidade. Eu não saberia dizer qual é o melhor, sendo que os considero igualmente obras singulares da Sétima Arte. Os pouquíssimos cinéfilos que conhecem Zurlini, sabem que seu cinema é individual, amargo, de uma natureza reflexiva e melancólica, como nenhum outro cineasta. Portanto, é de se esperar que seus melhores trabalhos traduzam o que há de mais caro à natureza humana e ao próprio cinema: a desilusão. Dois Destinos narra o drama de Enrico (Marcello Mastroianni), um jornalista frustrado que perdeu sua mãe quando tinha apenas 8 anos de idade. Seu irmão Lorenzo é doado ainda novinho para uma família rica. Anos depois, Lorenzo perde tudo que tem e procura seu irmão, em busca não apenas de instabilidade, mas principalmente procurando formar uma união que nunca havia tido com um parente de sangue. Mas Enrico culpa Lorenzo pela morte da mãe, mas nunca lhe diz nada a respeito disso. Certa noite, Lorenzo o procura e fica hospedado em seu mísero quarto. Começa assim uma nova etapa de vida para os dois irmãos. Cada um ao seu jeito, vai procurando se aproximar um do outro, visitam sua avó que está numa espécie de asilo, debatem sobre a vida, vão em busca de empregos, e um dia se separam novamente. Até que Lorenzo diz a Enrico que sofre de uma grave doença sem cura. Enrico acompanha todo o processo de tratamento do irmão, se aproximando mais dele. Como você pode ver, não é uma obra que apresenta uma história acessível ao grande público, mas trata-se de um drama forte, seco, sem nenhum senso de humor, sem coadjuvantes engraçadinhos. Aqui, Zurlini demonstra o que sabe fazer melhor: desilusão, solidão, questionamentos. Conhecido como o poeta da melancolia, Zurlini em seus filmes não abre espaço pra subtramas, vai direto ao ponto que interessa. Também não apela para o melodrama. Tudo gira em torno desses dois irmãos, seus dramas, suas lutas, suas esperanças de que as coisas possam melhorar, mas ao mesmo tempo percebemos durante todo o tempo que eles estão fadados ao pior, como já deixa anteceder o início da obra. Poucas vezes na história do cinema um filme foi tão cruel com seus personagens, tirando-lhes toda e quaisquer perspectivas de um “amanhã glorioso”. Mas Dois Destinos não seria uma obra tão forte e esplêndida se não tivesse à frente seus dois atores fantásticos: Marcello Mastroianni (Enrico) tem aqui a melhor interpretação de sua carreira, segundo alguns críticos, mostrando porque que realmente era o melhor ator italiano de todos os tempos. A cena em que ele conta para o irmão já doente, sobre sua mãe, é de uma naturalidade espantosa, entrando para a lista das melhores interpretações da história. Mastroianni era fenomenal, incomparável, um monstro nas telas. O francês Jacques Perrin (Lorenzo) também está ótimo como o irmão mais novo em estado terminal. Perrin já havia feito um ano antes com Zurlini, o belo A Moça com a Valise, e é conhecido do grande público de arte pelo seu desempenho em Cinema Paradiso, em especial na emocionante cena final em que ele assiste às cenas dos filmes cortadas pela censura. Ótimos atores aliás, era prioridade para Zurlini. Ele sabia que seus filmes eram fortes, sinceros, e só grandes atores poderiam expressar toda a fúria e desesperança de seus personagens, entre os grandes atores “zurlinianos” estão: Jean-Louis Trintignant e Eleonora Rossi Drago (Verão Violento), Claudia Cardinale (A Moça com a Valise) e Alain Delon e Giancarlo Giannini (A Primeira Noite de Tranqüilidade).
Valerio Zurlini foi injustamente esquecido por um tempo, sendo redescoberto há pouco tempo em amostras de cinemas. Injustiça mesmo, porque se iguala aos grandes diretores italianos como Roberto Rossellini, Federico Fellini, Vitório de Sica, Michelangelo Antonioni, Ettore Scola e Luchino Visconti. Zurlini era pintor, artista nato, era exigente nas escolhas de cenários e ângulos de câmeras, seus filmes são verdadeiros estudos para cinéfilos e estudiosos da área. Seu cinema é lento, introspectivo, sempre em busca de respostas. Está entre o que o cinema mundial pode oferecer.
Dois Destinos é cinema bruto, sério e avassalador.



Nota: 5 de 5

Título original: Cronaca Familiare

Lançamento: 1962 (Itália, França)

Direção: Valerio Zurlini

Elenco: Marcello Mastroianni, Jacques Perrin, Valeria Ciangottini, Sylvie

Duração: 115 minutos

Drama

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Todos os vencedores do Oscar de melhor filme



O ano de 1929 ficou marcado no cinema por ter sido o ano em que o prêmio Oscar (o mais importante da história da Sétima Arte) foi criado para celebrar os melhores do ano. De lá pra cá, a Academia vem premiando todos os especialistas da área de cinema. Coloco aqui a lista completa de todos os vencedores ao Oscar de melhor filme. Assisti a todos eles, e posso dizer que muitos desses filmes foram premiados merecidamente, mas também há aqueles que nem de longe mereciam estar nessa lista. O ano citado diz respeito ao ano da premiação, e não o ano de produção do filme. Vale a pena conhecer a lista e os filmes.


1929 - Asas (Wings) – Cenas aéreas muito bem feitas – Nota 4 de 5
1930Melodia na Broadway (The Broadway Melody) – Musical sem tantos atrativos – Nota 3 de 5
1931Sem Novidades no Front (All Quiet on the Western Front) – Anti-Guerra excepcional – Nota 5 de 5
1932Cimarron (Cimarron) – Épico de faroeste – Nota 4 de 5
1933Grande Hotel (Grand Hotel) – Muitas estrelas e pouco conteúdo – Nota 3 de 5
1934Cavalgada (Cavalcade) – Drama sem muita novidade – Nota 3 de 5
1935Aconteceu Naquela Noite (It Happened One Night) – Ótima comédia otimista – Nota 5 de 5
1936O Grande Motim (Mutiny on the Bounty) – Bela reconstituição de época – Nota 5 de 5
1937Ziegfeld, o Criador de Estrelas (The Great Ziegfeld) – Musical esplendoroso – Nota 5 de 5
1938A Vida de Emile Zola (The Life of Emile Zola) – Bela biografia de um gênio – Nota 4 de 5
1939Do Mundo Nada se Leva (You Can’t Take It With You) – Comédia de estilo – Nota 4 de 5
1940...E o Vento Levou (Gone With The Wind) – O maior de todos os clássicos – Nota 5 de 5
1941 Rebecca, a Mulher Inesquecível (Rebeca) – Suspense psicológico genial – Nota 4 de 5
1942Como Era Verde Meu Vale (How Green Was My Valley) – Memórias da infância – Nota 4 de 5
1943Rosa de Esperança (Mrs. Miniver) – Ótima “propaganda” de guerra – Nota 4 de 5
1944Casablanca (Casablanca) – O romance perfeito – Nota 5 de 5
1945O Bom Pastor (Going My Way) – Ótimo mistura de drama e música – Nota 4 de 5
1946Farrapo Humano (The Lost Weekend) – O alcoolismo e suas conseqüências – Nota 5 de 5
1947Os Melhores Anos de Nossas Vidas (The Best Years of Our Lives) – Marcas de uma guerra – Nota 5 de 5
1948A Luz É Para Todos (Gentleman’s Agreement) – O anti-semitismo e a sociedade – Nota 4 de 5
1949Hamlet (Hamlet) – Shakespeare num clássico absoluto – Nota 5 de 5
1950A Grande Ilusão (All the King’s Men) – Retrato da sujeira política – Nota 4 de 5
1951A Malvada (All About Eve) – O melhor filme sobre o teatro – Nota 5 de 5
1952Sinfonia de Paris (An American in Paris) – Um musical alegre e deslumbrante – Nota 5 de 5
1953O Maior Espetáculo da Terra (The Greatest Show on Earth) – O circo em superprodução – Nota 4 de 5
1954À Um Passo da Eternidade (From Here to Eternity) – Pearl Harbor e suas histórias – Nota 5 de 5
1955Sindicato de Ladrões (On The Waterfront) – Show de interpretações – Nota 5 de 5
1956Marty (Marty) – O amor não tem idade – Nota 4 de 5
1957A Volta ao Mundo em 80 Dias (Around the World in 80 Days) – Clássico da literatura ganha as telas – Nota 4 de 5
1958A Ponte do Rio Kwai (The Bridge on the River Kwai) – Superprodução de guerra – Nota 5 de 5
1959Gigi (Gigi) – Musical sem muita força – Nota 3 de 5
1960 Ben-Hur (Ben-Hur) – Épico dos épicos – Nota 5 de 5
1961Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment) – Segredos e revelações – Nota 4 de 5
1962Amor Sublime Amor (West Side Story) – O maior dos musicais – Nota 5 de 5
1963Lawrence da Arabia (Lawrence of Arabia) – Épico excepcional – Nota 5 de 5
1964As Aventuras de Tom Jones (Tom Jones) – Comédia com toques de romance – Nota 4 de 5
1965Minha Bela Dama (My Fair Lady) – Musical com bastante elegância – Nota 4 de 5
1966 A Noviça Rebelde (The Sound of Music) – Músicas inesquecíveis – Nota 5 de 5
1967O Homem que Não Vendeu Sua Alma (A Man for All Seasons) – Até o fim pelos ideais – Nota 5 de 5
1968No Calor da Noite (In the Heat of the Night) – Justiça e preconceito se encontam – Nota 4 de 5
1969Oliver! (Oliver!) – Charles Dickens em forma de musical – Nota 4 de 5
1970Perdidos na Noite (Midnight Cowboy) – Desilusão e solidão lado a lado – Nota 4 de 5
1971Patton, Rebelde ou Herói? (Patton) – A Guerra e seu preço – Nota 4 de 5
1972Operação França (The French Connection) – Policial ultra-realista – Nota 5 de 5
1973O Poderoso Chefão (The Godfather) – O melhor sobre a máfia – Nota 5 de 5
1974Golpe de Mestre (The Sting) – A sorte está lançada – Nota 4 de 5
1975 O Poderoso Chefão 2 (The Godfather Part II) – O épico continua – Nota 5 de 5
1976 Um Estranho no Ninho (One Flew Over the Cuckoo’s Nest) – A liberdade em discussão – Nota 5 de 5
1977Rocky, Um Lutador (Rocky) – O sonho americano realizado – Nota 4 de 5
1978 Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall) – Alegrias e tristezas do amor – Nota 5 de 5
1979O Franco-Atirador (The Deer Hunter) – Cicatrizes da guerra – Nota 5 de 5
1980Kramer vs. Kramer (Kramer vs. Kramer) – Tribunal entre família – Nota 4 de 5
1981Gente Como a Gente (Ordinary People) – A dor da perda – Nota 4 de 5
1982Carruagens de Fogo (Chariots of Fire) – Superação e limites – Nota 4 de 5
1983Gandhi (Gandhi) – A liberdade pela não-violência – Nota 4 de 5
1984Laços de Ternura (Terms of Endearment) – Conflitos em família – Nota 4 de 5
1985Amadeus (Amadeus) – Genialidade e rebeldia – Nota 5 de 5
1986 Entre Dois Amores (Out of Africa) – Romance proibido – Nota 4 de 5
1987 Platoon (Platoon) – O inimigo pode estar entre nós – Nota 5 de 5
1988O Último Imperador (The Last Emperor) – Superprodução sobre a decadência – Nota 5 de 5
1989Rain Man (Rain Man) – Superando as diferenças – Nota 4 de 5
1990Conduzindo Miss Daisy (Driving Miss Daisy) – A velhice e seus dramas – Nota 4 de 5
1991Dança com Lobos (Dances With Wolves) – O homem em busca de si mesmo – Nota 5 de 5
1992 O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs) – Medo e tensão na forma humana – Nota 5 de 5
1993 - Os Imperdoáveis (Unforgiven) – O passado nem sempre é esquecido – Nota 5 de 5
1994A Lista de Schindler (Schindler’s List) – O melhor retrato sobre o Holocausto – Nota 5 de 5
1995Forrest Gump, o Contador de Histórias (Forrest Gump) – Limitações podem ser superadas – Nota 5 de 5
1996Coração Valente (Braveheart) – Luta pela liberdade – Nota 4 de 5
1997 O Paciente Inglês (The English Patient) – Um amor resiste à Guerra – Nota 4 de 5
1998Titanic (Titanic) – Nada poderia separá-los? – Nota 5 de 5
1999Shakespeare Apaixonado (Shakespeare in Love) – O gênio e seus amores – Nota 5 de 5
2000Beleza Americana (American Beauty) – Desmacarando as convenções – Nota 5 de 5
2001Gladiador (Gladiator) – O escravo que virou gladiador – Nota 4 de 5
2002 Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind) – Alucinações de um gênio – Nota 4 de 5
2003Chicago (Chicago) – O ultimo grande musical – Nota 5 de 5
2004 O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei (Lord of the Rings – The Return of the King) – Conclusão de uma grande trilogia – Nota 5 de 5
2005 Menina de Ouro (Million Dollar Baby) – Sonho realizado e perdido – Nota 4 de 5
2006Crash – No Limite (Crash) – Drama forçado que não empolga tanto – Nota 3 de 5
2007 - Os Infiltrados (The Departed) – Os dois lados da lei em conflito – Nota 4 de 5
2008Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Men)A violência brutal – Nota 5 de 5
2009 Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire) Em busca do sucesso – Nota 3 de 5
2010 Guerra ao Terror (The Hurt Locker) - O inimigo sem rosto – Nota 4 de 5
2011 - O Discurso do Rei (The King's Speech) - Superação e determinação - Nota 5 de 5

domingo, 26 de dezembro de 2010

A Montanha dos Sete Abutres



Um jornalista chega à pequena província de Albuquerque no Novo México, e convence o dono de um jornal a lhe dar emprego. Esse jornalista é Charles Tatum (Kirk Douglas), homem inescrupuloso e manipulador, que já foi despedido de vários jornais de prestígio pelas mais diversas razões. Um ano se passa sem que Tatum consiga uma grande reportagem que seria seu passaporte para sair dali e voltar a fazer parte dos grandes jornais de Nova York ou Chicago. Mas acaba surgindo uma oportunidade, quando seu chefe lhe manda juntamente com um jovem fotógrafo a um lugarzinho ali perto pra cobrir uma reportagem sobre cascavéis soltas. Mas a caminho, Tatum descobre que algo mais “atrativo” está acontecendo. Um homem ficou preso em uma velha mina indígena que desmoronou. O esperto jornalista prepara todo seu arsenal para que tudo se transforme em uma grande notícia. Começa então um grande show, um festival de sensacionalismo que envolve a visita ao local de milhares de pessoas, parques de diversão, circo, música ao vivo, e outros jornalistas da imprensa e TV afim de não deixar escapar nenhum detalhe, demonstrando assim a necessidade que muita gente tem em se sentir bem perante a desgraça de outros.
Tatum joga as cartas na mesa e se mostra dono do jogo. Manipula o xerife local (que é corrupto), prometendo-lhe a reeleição, em troca da garantia de que ninguém atrapalhará sua cobertura jornalística; obriga a esposa da vítima (a bela Jan Sterling) a se fazer de mulher desconsolada, sendo que esta só quer mesmo é lucrar com as vantagens que o show lhe proporciona, e descarta tudo que lhe é desfavorável nesse “circo” criado por ele. A influência de Tatum se torna tão grande ali, que em certo momento ele obriga que o trabalho de salvamento do homem soterrado não seja feito por dentro da mina (esse processo seria rápido, e isso consequentemente faria com que o show terminasse logo), mas através de uma escavadeira por cima da montanha, prolongando assim o que poderia ser algo bem mais rápido.
O diretor Billy Wilder ao dirigir A Montanha dos Sete Abutres sabia que estaria com isso, mexendo com casa de abelhas, ou melhor, mexendo com a imprensa. A mesma imprensa que pode elevar ou destruir a carreira de um filme nos cinemas. E foi isso que aconteceu, o filme de Wilder foi um grande fracasso. Mas, diga-se de passagem, que foi um fracasso injusto, porém, o tempo passou e o transformou em uma das obras-primas do cinema. Nunca o sensacionalismo foi visto no cinema de forma tão abrangente e lúcida. No também brilhante Rede de Intrigas (1976), o diretor Sidney Lumet expõe uma situação parecida, porém neste, critica-se o papel do sensacionalismo da TV. Em Paixões que Alucinam (1962). Samuel Fuller moostra a história de um jornalista que, na ânsia de ganhar o prestigiado prêmio Pulitzer, se finge de louco pra ficar por uns tempos em um manicômio e assim descobrir quem foi o assassino de um dos internos. Em 1940, o excelente diretor Howard Hawks mostra em Jejum de Amor a história de jornalistas que correm atrás da notícia, em especial alguma novidade sobre um homem acusado de um crime que está sendo condenado à forca. Mesmo que seja uma comédia “ligeira”, Hawks não deixa de dar umas alfinetadas, criticando a imprensa marrom.
Em Impacto Profundo, numa das cenas, um homem afetado por uma reportagem chega pra uma repórter e pergunta: “Antes de você ser repórter, você era um ser humano”? . Se a imprensa algumas vezes detona o cinema, o cinema em algumas ocasiões também não deixa por menos.
Mas A Montanha dos Sete Abutres não seria tão esplêndido se não fosse pela direção magistral de Billy Wilder e a excepcional atuação de Kirk Douglas. Wilder era um diretor versátil, dirigiu filme noir (Pacto de Sangue), dramas (Farrapo Humano, crepúsculo dos Deuses), drama de guerra (Inferno nº. 17), comédias (Sabrina, O Pecado Mora ao Lado, Quanto Mais Quente Melhor, Se Meu Apartamento Falasse), filme de tribunal (Testemunha de Acusação), voltou a falar do jornalismo em A Primeira Página. Kirk Douglas é um dos maiores atores de Hollywood, nunca vi uma atuação fraca de Douglas, e sempre se deu bem em todos os gêneros. Trabalhou com os mais respeitados diretores, entre eles: William Wyler (Chaga de Fogo), Vincente Minnelli (Assim Estava Escrito, Sede de Viver), Stanley Kubrick (Glória Feita de Sangue, Spartacus), Joseph L. Mankiewicz (Quem é o Infiel?, Ninho de Cobras), entre outros.
Em alguns cursos de Jornalismo e Comunicação Social, esse filme é muito comentado e discutido, até mesmo porque o próprio diretor Wilder já fora jornalista antes de entrar pra Sétima Arte. Se algum estudante dessa área ainda não assistiu A Montanha dos Sete Abutres, procure conhecer, certamente será mais um pilar para a matéria que envolve Sensacionalismo.
A Montanha dos Sete Abutres tem uma ótima história (foi indicado ao Oscar de Roteiro Original, aliás, sua única indicação), diálogos brilhantes, personagens fortes. Reparem que durante todo o filme só vemos três pessoas corretas: o pai da vítima, a mulher que reza e o dono do jornal em que Tatum pediu emprego; de resto, só vemos pessoas egoístas e manipuladoras. Em certo momento, Tatum diz ao seu editor: “Se não aparece uma notícia, eu saio na rua e mordo um cachorro”.
Todo o sensacionalismo e “importância” dados aos mineiros presos em uma mina no Chile esse ano, foi um exemplo de que a obra de Wilder não envelheceu, continua mais atual do que há quase 60 anos.



Nota: 5 de 5

Título original: Ace in the Hole

Lançamento: 1951 (EUA)

Direção: Billy Wilder

Elenco: Kirk Douglas, Jan Sterling, Porter Hall, Robert Arthur, Frank Cady

Duração: 111 minutos

Drama