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sábado, 17 de setembro de 2011

O Triunfo da Vontade



Em 1934, aconteceu na Alemanha mais um Congresso Nacional-Socialista, onde eram expostos os ideais nazistas, reunindo milhares de alemães, civis, militares e principalmente Adolf Hitler e sua cúpula. Até aí tudo normal, se não fosse por um detalhe: a diretora e ex-atriz Leni Riefenstahl, uma artista que vinha de filmes que se passavam em montanhas geladas. Insatisfeito com a falta de qualidade dos registros de seus discursos, Adolf Hitler vê em Riefenstahl, a pessoa ideal para dar pompa e magnitude aos registros de propagandas naquele ano em Nuremberg. Algo que ficasse marcado na História. E o ditador não estava errado.
Os congressos eram armas perfeitas para alienar a imensa multidão que se reunia para ver e ouvir todo aquele discurso de superioridade, promessas e façanhas. Tudo era registrado pelas lentes de Riefenstahl. Porém, o que seria apenas uma simples filmagem com Hitler, seus seguidores e soldados, se transformou em algo maior, essas filmagens confirmaram que Riefenstahl era uma cineasta genial, uma verdadeira força de talento que usava sua câmera sempre de modo magistral, gigantesco, sem nunca cair no lugar-comum. Para conseguir efeitos devastadores, Riefenstahl (com todo o aval de Hitler) mandou construir equipamentos que facilitassem sua câmera de “passear” por diversos lugares, seja horizontal ou verticalmente, sem que houvesse obstáculo algum. E o que se vê demonstra que as técnicas utilizadas por Riefenstahl revolucionaram o processo cinematográfico. Uma triste ironia, sendo que eram nesses congressos que se reafirmava o domínio de idéias insanas que culminaram com o que hoje todos nós conhecemos: massacres, extermínios em massa, sofrimentos e barbáries. Mas não se pode analisar uma obra apenas pelo ponto de vista técnico, deixando de lado o que tal obra se propõe a dizer. 


As técnicas utilizadas por Riefenstahl captavam todo aquele “espetáculo”, de forma a que tudo parecesse épico. Começa com Hitler chegando de avião a cidade de Nuremberg (cidade onde exatamente anos depois foram julgados os líderes nazistas), depois o ditador dá uma volta pela cidade, onde são mostrados os moradores acenando e glorificando-o. Não é poupado cenas de soldados em demonstrações de fidelidade ao Fuhrer. Aliás, não apenas os soldados lhes juravam fidelidade, mas também as filiações e partido, onde não cansavam de dizer: “A Alemanha é Hitler, Hitler é a Alemanha”. Tudo parecia encenado, ao som de músicas clássicas, bandeiras, símbolos nazistas, aviões, etc. As cenas de milhares de soldados marchando é no mínimo impressionante, e até mesmo aterrorizante, quando sabemos que a real intenção daquele exército era de exterminar milhões de pessoas que não se "encaixavam" nos modelos arianos apresentados por Hitler.
É espantoso ver que milhões de pessoas se deixavam levar pelos terríveis discursos de seu “mentor”. Onde Hitler ia, adultos e crianças faziam questão de estarem por perto, cumprimentar o tirano. Olhavam-no com tanta admiração que nos faz pensar que houve uma lavagem cerebral coletiva naquele povo, porque de outro modo não dá para entender o motivo que fazia com que Hitler, um homem de aparência patética, até mesmo risível, com um bigode quadrado, uma figura chapliniana (o próprio Charles Chaplin o imitou de forma brilhante em O Grande Ditador) pudesse inflamar tanta admiração de um povo que se recuperava da perda na Segunda Guerra. No entanto, era isso mesmo que Hitler sabia usar muito bem: causar naquele povo o espírito de uma nação derrotada que deveria se reerguer, marchar e lutar pela vitória. 


Se Hitler era ridículo em sua aparência, sabia usar de sua incrível oratória para levar toda uma nação ao caos, fazendo acreditar em histórias de superioridades de raças e outros delírios incríveis que pareciam tirados da mitologia grega. Riefenstahl sabia disso muito bem, e utilizou esses discursos eloqüentes para dar asas à sua imaginação e focar no que aquele congresso e aquela cidade tinham a oferecer: um belo panorama, um“estúdio” ou “laboratório”, onde tudo é muito gigantesco, e que em alguns momentos nos faz lembrar filmes épicos no estilo Ben-Hur e Lawrence da Arábia. Nunca se viu tantas pessoas reunidas em um só lugar, um verdadeiro espetáculo onde milhares de soldados, moradores da cidade e a alta cúpula nazista (Josef Goebbels, Hermann Göring, Rudolf Hess, entre muitos outros aliados), com seus sorrisos, aplausos e proclamações de fidelidade ao tirano, deixavam crer que eles realmente acreditavam em tudo aquilo.
Riefenstahl usava um truque genial e até então pouco utilizado no cinema: a câmera ao filmar os discursos de Hitler e seus seguidores, era colocada mais baixa, fazendo com que eles parecessem grandes, imponentes, um recurso que Orson Welles utilizaria em Cidadão Kane (repare na cena do discurso); o diretor japonês Yasujiro Ozu também gostava de filmar com a câmera mais baixa.
Os discursos inflamados pareciam bem melhores sob as lentes de Riefenstahl. Até mesmo bobagens panfletárias ditas por Hitler como: “Não é o Estado que nos criou, mas nós é que criamos o Estado”, parece soar de maneira triunfante. 

Afinal de contas, o que é O Triunfo da Vontade? Para muitos, a maior propaganda de guerra já realizada; há quem ache que seja um jogo de alienação. Mas serve também como uma análise: o cinema também pode ser uma arma quando cai em mãos erradas?
Sim, é bem provável, uma vez que Hitler e sua cúpula utilizaram da Sétima Arte como veículo pra vários filmes onde se exaltava o patriotismo. Esses filmes mostravam jovens se alistando no intuito de morrerem se fosse preciso, tudo pela causa nazista, tudo em nome de Hitler. Geralmente eram filmagens amadoras feitas pela Juventude Hitlerista. Riefenstahl apareceu para revolucionar a maneira de se fazer cinema-propaganda (é dela também o famoso documentário Olympia). Infelizmente ela estava do lado errado e pagou por isso. Depois da Segunda Guerra, Riefenstah foi acusada de usar prisioneiros em seus filmes. Só foi condenada a 4 anos de prisão, mas devido ao seu envolvimento em projetos nazistas (ela sempre negou ser afiliada de tal partido), foi boicotada e nunca mais conseguiu financiamento para seus filmes. Acabou trabalhando com fotografia submarina.
Analisando O Triunfo da Vontade como técnica revolucionária e esquecendo um pouco que se trata de um poderoso discurso de propaganda de guerra, notamos que se trata de uma aula de cinema. Porém, se não dá para esquecer as arbitrariedades proclamadas por Hitler, ao menos podemos ver que por trás daqueles discursos inflamados em Nuremberg se escondia uma das maiores cineastas da história. 


Leni Riefenstahl (centro)






Nota: 5 de 5

Título original: Triumph des Willens



Lançamento: 1935 (Alemanha)

Direção: Leni Riefenstahl



Elenco: Adolf Hitler, Josef Goebbels, Hermann Göring, Rudolf Hess, etc.
 
Duração: 114 minutos



Documentário

domingo, 28 de novembro de 2010

Meus 10 filmes preferidos



 ...E O VENTO LEVOU (1939)

O filme mais visto em todo o mundo, é também a obra que melhor representa a Era de Ouro de Hollywood. Uma superprodução vencedora de dez Oscars que conquistou milhões de pessoas em todo o mundo durante mais de 70 anos. Lá pelo final da década de 40, o livro homônimo de Margaret Mitchell chega às mãos do produtor David O. Selznick, este se apaixona pela obra e resolve produzí-la, mal sabendo ele que seria um dos trabalhos mais difíceis da história do cinema. Uma lista enorme de atrizes que concorriam pelo papel de Scarlett O’Hara, Clark Gable foi imposto pelos fãs no papel masculino principal, três diretores passaram pelo projeto (George Cukor, Sam Wood e Victor Fleming, este último recebeu os créditos), e até mesmo o próprio Selznick chegou a dirigir algumas cenas; filmagens atrasadas, orçamento estourado. Mas o sacrifício valeu a pena, ...E o Vento Levou é de longe um os maiores monumentos do cinema. O casal principal feito por Clark Gable e Vivien Leigh entrou para a história. Uma história de amor em que o capitão Reth Butler ama Scarlett O’Hara, mas esta só tem olhos para um homem, já comprometido, durante a Guerra da Secessão. O final nada feliz é marcante e inesquecível, assim como todo o restante da obra. 




 A LISTA DE SCHINDLER (1993)

O diretor Billy Wilder (Crepúsculo dos Deuses) era quem iria dirigir esse projeto baseado no livro de Thomas Kenneally, mas Steven Spielberg acabou dirigindo esta que é sua obra-prima máxima. Um relato triste e cruel da história real de Oskar Schindler (Liam Neesom), um empresário alemão que abre uma fábrica na Polônia e emprega ali vários judeus do Campo de Concentração de Plaszow. No início, Schindler se mostra um homem vaidoso, interessado apenas em lucros e amantes, mas ao presenciar um massacre de judeus pelos nazistas, em especial quando uma menina anda sem rumo tentando sobreviver, Schindler se dá conta de que sua vida boêmia é desprezível em meio a tanta gente morrendo e ele não fazer nada pra mudar tal situação. Com a ajuda de seu auxiliar (Ben Kingsley), ele cria uma lista de judeus para serem negociados com o temível comandante dos nazistas (Ralph Fiennes), para que os mesmos não morram nos Campos e continuem trabalhando para ele. Através de acordos e subornos, Schindler tenta a todo custo mantê-los vivos. Filmado em preto e branco e vencedor de 7 Oscars, A Lista de Schindler é o melhor filme já feito sobre o Holocausto.




 AMOR, SUBLIME AMOR (1961)

O Musical no cinema hoje em dia é um gênero que não tem mais vez, mas durante muito tempo foi um gênero que reinou em Hollywood. Clássicos como O Picolino, Os Sapatinhos Vermelhos, O Pirata, Cantando na Chuva, Sete Noivas Para Sete Irmãos e A Noviça Rebelde, entre tantos outros, encantaram o público que não se cansava de ver astros como Gene Kelly e Fred Astaire fazerem piruetas mirabolantes, sem contar que, ver a Cid Charisse em cena era um deleite para os olhos. De todos os musicais que já vi, o meu preferido é Amor, Sublime Amor, dirigido por Robert Wise (O Dia em que a Terra Parou) em parceria com Jerome Robbins. É um filme mágico, encantador, inesquecível, algo que só poderia sair das mentes criativas da Hollywood clássica. Baseado em Romeu e Julieta de William Shakespeare, Amor, Sublime Amor conta a hitória de um amor impossível entre Maria (Natalie Wood) e Tony (Richard Beymer) em meio à duas gangues rivais pela disputa de teritórios na Nova York dos anos 60. Belíssimas canções fazem desse clássico vencedor de dez Oscars, um filme singular na história da Sétima Arte. 




 CIDADÃO KANE (1941)

Orson Welles (A Marca da Maldade) tinha na época 26 anos quando resolveu fazer Cidadão Kane. Mal sabia ele que não seria um filme qualquer, mas sim aquele que muitos críticos consideram ser o melhor de todos os tempos. Não há qualquer exagero em considerar Cidadão Kane como um filme sem precedentes na história do cinema, pois trata-se de uma obra-prima incontestável, irretocável, onde cada elemento contido nele só o torna ainda mais excelente. Welles revolucionário a arte cinematográfica ao introduzir elementos até então inéditos no cinema, como filmagens de tetos, ângulos de câmeras colocados de forma a se ver o que acontece ao fundo dando a impressão de que estamos dentro do filme, além ainda da forma em que o roteiro nos apresenta uma história não linear, em que os acontecimentos vão e vem sem ter uma preocupação com uma cronologia direta dos fatos apresentados. O filme conta a história do magnata Charles Foster Kane da imprensa, de sua infância pobre quando é separado dos pais e vai viver com um banqueiro que lhe coloca no ramos das comunicações, até suas experiências fracasados nos relacionamentos com mulheres e amantes, culminando em seu fim solitário. Filme indispensável para quem quer estudar e entender a fundo a história do cinema. Vencedor do Oscar de roteiro original. 




 BEN-HUR (1959)

William Wyler foi um dos maiores diretores da Era de Ouro de Hollywood e já havia ganhado dois Oscars de direção por Rosa de Esperança (1942) e Os Melhores Anos de Nossas Vidas (1946). Diretor de vários gêneros, Wyler resolveu se aventurar em um épico para provar que também era capaz de dirigir uma superprodução de época. O resultado não poderia ter sido melhor, pois além de um enorme sucesso nas bilheterias, Ben-Hur conquistou nada menos que 11 Oscars, entre eles de filme, direção (o terceiro prêmio pra Wyler nessa categoria) e ator para Charlton Heston. Recusado por vários atores, o papel de Ben-Hur foi parar nas mãos de Heston que havia feito com Wyler no ano anterior o belo faroeste Da Terra Nascem os Homens. Conta aqui a história de Judah Ben-Hur, um rico judeu que é traído pelo amigo Messala e condenado a viver como escravo. Ele então parte em busca de vingança ao mesmo tempo em que procura a mãe e a irmã que desapareceram. Com belíssimas cenas, entre elas uma magnífica corrida de bigas, Ben-Hur é um filme que mostra um contexto importante da História: a conversão de judeus ao Cristianismo. Baseado no romance fictício de Lew Wallace, Ben-Hur é um dos maiores épicos já feitos em Hollywood.




 MATAR OU MORRER (1952)

Assim como o musical, o gênero faroeste também era muito aceito na fase áurea de Hollywood. O público enchia os cinemas para assistir aos filmes que eram considerados um gênero americano por excelência (depois na Itália foi surgindo os Western-Spaghetti). Diretores como John Ford, Howard Hawks, Anthony Mann, Henry King e Delmer Daves reinaram com os filmes de faroestes americanos. Mas o meu filme de faroeste preferido é dirigido por um diretor conhecido por filmes dramáticos, Fred Zinnemann, ganhador de dois Oscar de direção por À um Passo da Eternidade (1953) e O Homem que não Vendeu Sua Alma (1966). Matar ou Morrer faz parte de um ciclo de faroestes psicológicos que surgiu no final dos anos 40 e se estendeu até o começo dos anos 70. Em Matar ou Morrer, Gary Cooper (que levou seu segundo Oscar de melhor ator por esse filme) interpreta um xerife que depois do casamento, descobre que bandidos presos por ele estão voltando à cidade ao meio-dia para matá-lo. Ele pede ajuda aos moradores, mas ninguém o ajuda e ele se vê sozinho. Um belo filme que fala sobre o isolacionismo, uma clara alusão ao Marcathismo (um movimento “Caça às Bruxas” que se propagou nos anos 50 nos Estados Unidos). A Belíssima Grace Kelly interpreta a esposa de Cooper. Além de melhor ator, o filme ganhou mais 3 Oscars. 





 AMNÉSIA (2000)

O diretor Christopher Nolan ficou famoso quando deu nova vida ao Batman em Batman Begins (2005) e Batman – O Cavaleiro das trevas (2008), e em 2010 agradou críticos e público com A Origem. Mas seu melhor trabalho ainda é Amnésia, um filme diferente de tudo que já se viu nas telas. Para começar, é um filme que tem sua ordem cronológica ao inverso, ou seja, é de trás pra frente. Conta a história de um homem (Guy Pearce) que tem sua esposa violentamente assassinada; ao tentar salvá-la, ele também é vítima do bandido que lhe provoca uma lesão que o deixa com um sério problema: ele não se lembra de nada do que lhe acontece 5 minutos atrás. Ele só sabe que precisa vingar a morte da esposa, e tatua todo seu corpo com inscrições que o levem a novas pistas sobre o assassino. Amnésia é um filme complexo e inteligente, e que no final (ou seria o começo?) faz todo sentido. Não engana o espectador com truques baratos, mas lhe dá uma conclusão de cair o queixo. De longe é um filme que carrega um dos roteiros mais inteligentes já vistos. À cada vez que assistimos, vamos descobrindo novos detalhes que nos passaram em branco nas vezes anteriores. Excelente.




 A FELICIDADE NÃO SE COMPRA (1946)

Em uma cidadezinha dos Estados Unidos durante os dias que antecedem o natal, um homem correto e admirado por muitos se vê encrencado por causa de um dinheiro que lhe foi tomado. O dinheiro não era dele, por isso ele se vê em aflição. Desesperado, pensa em se jogar de uma ponte, mas um anjo aparece naquele momento e mostra como seria aquela cidade se ele não existisse. O diretor Frank Capra ganhou três Oscars de direção por Aconteceu Naquela Noite (1934), O Galante Mrs Deeds (1936) e Do Mundo Nada se Leva (1938),  todos eles são ótimos filmes. Mas sua obra-prima é mesmo A Felicidade Não se Compra, um dos melhores e mais emocionantes filmes já feitos. O cinema de Capra é conhecido pelo otimismo, onde um homem bom sempre luta contra os ricos e opressores. Em A Felicidade Não se Compra ele explora ao máximo esse tema, onde brilha o ótimo ator James Stewart (parceiro de Capra em outros filmes) que tem uma brilhante atuação. Começa com o herói em sua infância, onde em uma das cenas, uma menina (sua futura esposa) se aproxima do ouvido surdo dele e diz: “Eu te amarei para sempre!”, essa é uma de minhas cenas favoritas do cinema. Um filme belíssimo, repleto de momentos antológicos.




 APOCALYPSE NOW (1979)

Nos anos 70, o diretor Francis Ford Coppola reinou em Hollywood com nada menos que quatro obras-primas: O Poderoso Chefão (1972), O Poderoso Chefão – Parte II (1974), A Conversação (1974) e Apocalypse Now (1979). Este último é o meu preferido, é aquele que apresenta toda a megalomania típico de Coppola, seus arroubos visuais e técnicos. Apocalypse now é um filme de guerra como nenhum outro. Trata-se de um verdadeiro pesadelo nas selvas perigosas do Vietnã durante a guerra travada pelos norte-americanos nesse país. Coppola leva um grupo de soldados a viverem os maiores horrores em um barco rumo a uma área desconhecida onde um ex-coronel do exército americano (Marlon Brando, simplesmente genial) se rebelou e agora lidera uma aldeia de vietcongues fanáticos. À medida que os soldados vão seguindo pela selva, vão encontrando todos os tipos de situações, das mais inusitadas possíveis. Em certo momento, eles chegam em uma área onde está sendo travado um combate, ali, os soldados mais se parecem com mortos-vivos, atirando não se sabe em quem ou em que. Ao chegarem ao destino planejado, se encontram com o coronel que os recebe cordialmente. Mas aquele homem que enlouquecera naquele ambiente selvagem, precisa ser detido. Apocalypse Now tem um estilo bem diferente de outros filmes de guerra, aqui o que importa não á a guerra em si, mas sim mostrar a loucura de homens lutando contra inimigos invisíveis em um lugar onde impera o medo e a carnificina. Vencedor de dois Oscars. Vagamente inspirado no livro O Coração das Trevas de Joseph Conrad.




 LAWRENCE DA ARÁBIA (1962)

A História real de Thomas Edward Lawrence (autor de Os Sete Pilares da Sabedoria), que de simples observador e relator na guerra entre árabes e turcos na Primeira Guerra Mundial, acabou entrando em combate a favor dos árabes e se destacou pela sua coragem e determinação. Obra-prima de David Lean, um dos maiores diretores do cinema que fez filmes como Desencanto (1945), Oliver Twist (1948), A Ponte do rio Kwai (1957, aqui vencendo seu primeiro Oscar de direção) e Doutor Jivago (1965), entre outros. Contando com um excelente elenco que inclui Peter O’Toole no papel principal, e ainda Omar Sharif, Alec Guiness e Anthony Quinn, este é um filme que ficou marcado na história do cinema por ter as mais belas imagens do deserto já feito. Com uma fotografia deslumbrante, Lawrence da Arábia reina no quesito técnico como nenhum outro. É uma superprodução excepcional, contando a história de um homem que luta por um povo do qual ele não faz parte. Mas aqui Lean não deixa seu personagem cair no estereótipo do herói exemplar, mas o mostra de forma humana, que em alguns momentos se mostra um homem vaidoso e sedento por sangue inimigo. É uma biografia esplendorosa como poucas vezes foi mostrada no cinema. Um verdadeiro espetáculo, ganhador de sete Oscars, entre eles de melhor filme e o segundo de direção para David Lean. 




domingo, 25 de abril de 2010

Cidadão Kane



Eleito o melhor filme de todos os tempos pela crítica mundial, em especial pelo American Film Institute, Cidadão Kane é um dos maiores clássicos da história do cinema. Um filme absolutamente genial, diferente de tudo que já se viu. E olha que já se passaram quase 70 anos que ele foi lançado. Continua muito atual e original. Seu diretor Orson Welles que na época tinha apenas 26 anos de idade, foi considerado um gênio por ter dirigido, produzido, roteirizado e estrelado essa obra revolucionária.
Eram tempos de guerra (A Segunda Guerra Mundial), o mundo vivia um colapso, mas Hollywood não parou (Durante os seis anos de guerra, foram produzidos alguns dos melhores filmes da história, como por exemplo: ...E o Vento Levou, Casablanca, Pacto de Sangue, O Falcão Maltês e Cidadão Kane, entre muitos outros), e com isso suas produções eram ousadas e muitas delas a frente de seu tempo, como essa obra máxima de Welles que conta a fictícia história de Charles Foster Kane que de menino pobre, se torna um milionário e manipulador magnata da imprensa jornalística. O filme já começa com Kane morrendo, pouco depois de dizer sua última palavra: ROSEBUD. Um jornalista decide procurar pessoas relacionadas ao passado de Kane, a fim de descobrir o que significa tal palavra. Seria uma mulher? Uma loja? Uma cidade? Aos poucos, amigos, amantes, ex-funcionários e ex-esposas do magnata vão descrevendo quem era aquele homem que se tornou tão poderoso a ponto de interferir e mudar suas vidas.
Depois de sua morte, o filme começa com Kane ainda criança, sendo entregue pelos pais pra ser criado por um milionário. Já adulto, ele vai gerenciar o jornal e chama seus amigos pra ajudá-lo. Ganhando muito dinheiro, se torna um influenciável homem que se perde em suas próprias ambições. Não consegue manter o equilíbrio com a esposa, se deixa levar por amantes e vai perdendo as pessoas à sua volta. Ou será que as pessoas à sua volta no fundo não se importavam com ele?
Vemos com o passar do tempo, que Kane vive mergulhado numa solidão que o acompanha desde sua infância. Ele vive sempre reclamando, questionando, não se contenta com quase nada, mas ao mesmo tempo procura agradar sempre a mulher que ele diz ter amado. Kane não consegue disfarçar a frustração de sua vida, seus anseios não condizem com sua realidade de homem influente. Ele parece sempre querer gritar algo que está dentro dele, mas as pessoas não parecem querer ouvir. Num dialogo sobre a riqueza com o homem que o adotou, ele diz: “A mim só interessava as colherzinhas de prata”. Deixando subentender que nada daquela grandeza o preenchia.
Welles se inspirou (mesmo que negasse) na vida do magnata da imprensa William Randolph Hearst, para fazer o seu Cidadão Kane. Welles via na história desse homem, um riquíssimo material para começar a sua carreira cinematográfica. Mas Welles mal sabia que pagaria um preço muito alto por isso. Hearst quando soube do filme (ainda em fase de produção) tentou a todo custo impedir a sua estréia, não conseguindo, manipulou tudo e todos a sua volta para destruir o filme em sua divulgação. O magnata usou de seu poder nas comunicações pra acabar com Welles, tendo se irritado ainda mais por ter visto sua amante (a atriz) Marion Davies sendo retratada nas telas (no filme é uma cantora). Depois desse filme, Welles perdeu a confiança dos produtores (tudo por influência de Hearst) e só conseguiria terminar seus filmes através de muitos esforços seu e de seus amigos. Alguns desses filmes eam feitos fora dos E.U.A. Welles aceitava participações secundárias em alguns filmes pra conseguir dinheiro pra seus próprios filmes. A participação mais marcante em um filme que não era seu foi em O Terceiro Homem, um ótimo filme de 1949 dirigido por Carol Reed (Oscar de direção por Oliver! De 1968) e protagonizado pelo amigo Joseph Cotten que está além de Cidadão Kane, no filme posterior de Welles: Soberba (do ano seguinte).
Tudo em Cidadão Kane é revolucionário: roteiro brilhante com uma estrutura narrativa fragmentada, os movimentos de câmera com closes e elementos em segundo plano, os tetos pela primeira vez eram mostrados em um filme, o som capturava até o barulho das gotas da chuva, a excelente atuação de Welles, passando de jovem a idoso com uma naturalidade incrível. Tudo muito fantástico, um espetáculo de primeira linha. Mas engana-se quem pensa que a genialidade de Welles é fruto de um só filme. Em suas obras posteriores como Sobeba, Macbeth e A Marca da Maldade, ele imprime uma originalidade extraordinária. Suas participações em filmes de outros diretores também são marcantes, como em Moby Dick (1956, de John Huston) e O Homem Que Não Vendeu Sua Alma (1966, de Fred Zinnemann).
Há um documentário feito pela rede de tv PBS chamado A Batalha por Cidadão Kane no qual é relatado o conflito entre Welles e o magnata Hearst. É um documentário revelador e muito importante pra quem quiser saber mais sobre um dos momentos mais famosos e contundentes da história do cinema envolvendo um de seus maiores gênios. Curiosamente, foi feito também um documentário chamado Muito Além do Cidadão Kane, feito por uma rede de tv britânica que surpreendentemente fala sobre a Rede Globo e seu poder de manipulção, onde seu fundador Roberto Marinho é comparado à Charles Forster Kane (manipulador da opinião pública, viram a semelhança?).
Cidadão Kane concorreu a 10 Oscars, mas só ganhou o prêmio de roteiro original (Welles em parceria com Herman J. Mankiewicz, irmão de Joseph Mankiewicz, o diretor de A Malvada e Cleópatra, entre outros), perdendo melhor filme e direção pra Como Era Verde Meu Vale (um bom filme de John Ford, mas que evidentemente é inferior à obra de Welles). Dizem que isso foi por influência de Hearst. Mas uma coisa nós sabemos: William Randolph Hearst só é lembrado hoje por algumas pessoas em sua localidade, mas Orson Welles entrou pra história do cinema como um dos maiores gênios de todos os tempos.
O final é um dos mais surpreendentes e reflexivos da história, onde é revelado o segredo da palavra ROSEBUD.


Nota: 5 de 5

titulo original: Citizen Kane

lançamento: 1941 (EUA)

direção: Orson Welles

Atores: Orson Welles, Joseph Cotten, Dorothy Comingore, Agnes Moorehead, Ruth Warrick, Ray Collins

duração: 119 min

gênero: Drama

quinta-feira, 4 de março de 2010

Oscar




Criado em 1927, o Oscar ou Academy Awards é o prêmio mais importante da história do cinema, e por isso mesmo o mais comentado e copiado em todo o mundo. O ano de seu surgimento foi justamente o ano em que os filmes começariam a deixar de serem mudos para serem filmes falados (ou sonoros). O primeiro vencedor do Oscar de melhor filme foi uma produção de guerra: Asas (o primeiro e único filme mudo a ser premiado pela Academia) que até hoje impressiona pelos seus efeitos técnicos, mostrando cenas perigosas de vôos, algumas delas bem chocantes.
Seguiram-se alguns prêmios: Frank Capra em 1935 ganharia o primeiro de seus três Oscars de direção por Aconteceu Naquela Noite, mas estranhamente seu melhor filme A Felicidade não se Compra (de 1947) não ganharia nada. Em 1940 foi premiado aquele que na minha opinião foi o melhor vencedor do Oscar de todos os tempos: ...E o Vento Levou (1939), primeiro filme em cores a ganhar o Oscar principal, ele foi também o primeiro filme ganhador do Oscar a passar de 3 horas e meia de duração, a ter a primeira pessoa negra a ganhar um Oscar de interpretação, e a ganhar 10 prêmios (recordista na época). No ano seguinte Rebecca - A Mulher Inesquecível ganharia o Oscar mas seu diretor Alfred Hitchcock perderia o de direção. Em 1942 Cidadão Kane de Orson Welles (eleito por muitos críticos como o melhor filme de todos os tempos) perderia o Oscar principal pra Como Era Verde meu Vale (um filme emocionante, mas bem aquém da obra-prima de Welles).
Alguns dos principais vencedores posteriores seriam Casablanca, Farrapo Humano, Hamlet, A Malvada, Sindicato de Ladrões, A Ponte do Rio Kwai. Em 1960, Ben-Hur (1959) é o recordista em prêmios, levando 11 Oscars (só igualado anos depois por Titanic de 1997 e O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei de 2003.). Depois dele, outros que ganharam o prêmio principal: Amor, Sublime Amor (10 Oscars, se igualando a ...E o Vento Levou), Lawrence da Arábia, A Noviça Rebelde, O Homem que não Vendeu sua Alma, Perdidos na Noite, O Poderoso Chefão I e II, Um Estranho no Ninho, O Franco-Atirador.
Em 1980, o melhor filme de guerra da história: Apocalypse Now perde o Oscar principal pra um drama hoje meio esquecido: Kramer Vs Kramer. Em 1982, o único filme desacreditado dos 5 concorrentes ganha o Oscar: Carruagens de Fogo (ganhando de filmes melhores como Os Caçadores da Arca Perdida, Reds e Atlantic City).
Outros vencedores: Amadeus, Platoon, O Último Imperador, Rain Main. Em 1990 Conduzindo Miss Daisy ganha injustamente de Nascido em 4 de Julho, Sociedade dos Poetas Mortos e Meu Pé Esquerdo.
Na década de 90 tivemos como vencedores: Dança com Lobos (bom filme sobre o pacifismo), O Silêncio dos Inocentes (merecido), Os Imperdoáveis (O melhor Western a ganhar o Oscar de melhor filme), A Lista de Schindler (Belíssimo filme, mais que merecido), Forrest Gump (Muito bom), Coração Valente (Num ano fraco, foi justo), O Paciente Inglês (meu preferido era Shine-Brilhante), Titanic (Gosto muito desse filme, apesar de hoje em dia muita gente dizer que não gosta), Shakespeare Apaixonado (Num ano polêmico, ganhou de O Resgate do Soldado Ryan, mas Steven Spielberg ganhou de direção), Beleza Americana (Muito bom).
Ano 2000 pra cá: Gladiador (Meu preferido era o chinês O Tigre e o Dragão), Uma Mente Brilhante (Filme interessante, mas não acredito que merecesse ganhar de O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel. O melhor filme daquele ano: Amnésia, nem foi indicado), Chicago (Muitos acham que O Pianista deveria ter ganhado), O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei (merecido), Menina de Ouro (Bom filme), Crash – No Limite (Na minha opinião um dos piores filmes a ganhar o Oscar principal. Não é ruim, mas perde feio pra todos os outros 4 filmes que concorriam com ele), O Infiltrados (Bom filme), Onde os Fracos não têm Vez (Bom, mas meu preferido do ano era Desejo e Reparação), Quem Quer ser um Milionário? (Um equívoco, sendo que o melhor filme daquele ano: Batman – O Cavaleiro das Trevas ficou de fora das indicações de filme e direção).
Nesse domingo teremos mais uma edição do Oscar, dessa vez ao invés de 5 concorrentes ao Oscar principal, teremos 10. Mas dois filmes estão na disputa maior: o campeão de bilheteria Avatar (Não é um grande filme, mas uma grande diversão, de James Cameron, o mesmo diretor de Titanic) e Guerra ao Terror (Um bom filme de guerra. O filme que pode dar o primeiro Oscar de direção a uma mulher). Meu preferido no entanto é Bastardos Inglórios (Um filme totalmente alucinante de Quentin Tarantino). É esperar até domingo prá ver quem sairá o vencedor.